“Prima”: Adéla transforma sua obsessão pela cultura pop em um álbum de estreia provocador

A primeira vez que muita gente ouviu falar de Adéla foi durante sua participação em “The Debut: Dream Academy”, reality show da HYBE e Geffen que deu origem ao KATSEYE. Ela não entrou na formação final do grupo, mas saiu dali com algo quase tão importante quanto uma vaga: uma narrativa. A artista eslovaca chamou atenção pela presença, disciplina e ambição, e a eliminação acabou funcionando menos como fim de sonho e mais como o primeiro capítulo de uma carreira solo cuidadosamente construída.

Desde então, Adéla vem tentando provar que não era apenas uma candidata descartada por um reality musical. Depois de lançar músicas solo em 2024 e ganhar tração com o EP “The Provocateur”, a cantora assinou com a Capitol Records e agora apresenta “Prima”, seu primeiro álbum de estúdio, lançado em 4 de setembro. O projeto tem 11 faixas e chega embalado pelo sucesso viral de “Ain’t In LA”, sua primeira entrada na Billboard Hot 100.
Uma vida moldada pela cultura pop
Se existe uma coisa que Adéla não tenta esconder em “Prima”, é o quanto sua vida foi moldada pela cultura pop. O álbum soa como uma carta de amor, mas também como uma provocação ao próprio universo que ela deseja ocupar. Ao longo do projeto, a cantora usa referências de divas, ícones, excessos dos anos 2000, estética de fama e ambição como matéria-prima para construir sua própria persona.

O disco começa com “KGB”, faixa que ainda preserva parte da energia eletrônica e agressiva apresentada em “The Provocateur”. Mas “Prima” logo amplia o território. Em vez de ficar presa a uma única sonoridade, Adéla mistura pop, batidas eletrônicas, hip-hop, melodrama, teatralidade e referências dos anos 2010. É como se ela estivesse tentando organizar tudo que consumiu, desejou e estudou dentro de um álbum que quer soar ao mesmo tempo familiar e novo.
Essa talvez seja a maior força e também o maior risco do projeto. Adéla entende muito bem os códigos do pop. Ela sabe como uma estrela deve parecer, como uma era precisa se comportar e como uma narrativa pode transformar uma cantora em personagem. O desafio é fazer com que tantas referências apontem para ela, e não apenas para os artistas que vieram antes.
Entre a fama, o desejo e a máquina da indústria
Ao falar tão cedo sobre fama, exposição e bastidores da indústria, “Prima” inevitavelmente lembra álbuns de estreia que já nasceram olhando para a engrenagem do estrelato. Adéla não canta apenas sobre amor, festa ou ambição. Ela parece interessada em discutir o que significa querer ser uma estrela pop quando a própria ideia de estrela já vem cheia de preço, sacrifício e performance.

Esse olhar aparece especialmente porque sua trajetória já veio marcada por uma vitrine pública. Adéla não surgiu do nada: ela foi apresentada ao público dentro de um processo competitivo, comparativo e altamente produzido. Em “Prima”, essa experiência parece atravessar a forma como ela se coloca no mundo. Ela sabe que está sendo observada. E, em vez de tentar fingir naturalidade, transforma essa consciência em parte do espetáculo.
A presença de “Boys”, faixa que inclui Lara Raj, do KATSEYE, também carrega um peso simbólico. É uma espécie de reencontro indireto entre caminhos diferentes: de um lado, o grupo formado pelo reality; do outro, Adéla tentando provar que sua eliminação pode ter sido justamente o que permitiu a construção de uma identidade própria. A participação aparece nos créditos do álbum e reforça essa ligação com o universo que apresentou Adéla ao público.
A vulnerabilidade por trás da pose
Apesar da imagem provocadora, “Prima” não funciona apenas no modo ataque. O álbum também revela uma artista tentando elaborar o custo emocional de perseguir um sonho grande demais. Em faixas como “Hitachi” e “Therapy”, Adéla abre espaço para inseguranças, conflitos familiares, exaustão e a sensação de estar constantemente tentando provar alguma coisa.

Essa vulnerabilidade aparece de forma ainda mais forte em “Ain’t In LA”. A faixa nasceu de uma memória familiar: durante uma visita a Bratislava, Adéla encontrou fotos da mãe aos 18 anos diante de uma parede coberta por imagens da cultura pop ocidental, pôsteres que, segundo a cantora, eram levados pelo avô da Alemanha. A música parte dessa imagem para falar sobre garotas cheias de sonhos que talvez nunca tenham tido a chance de brilhar.
O mais interessante é que “Ain’t In LA” não vende Los Angeles como solução mágica. Pelo contrário. A música entende o fascínio pela cidade, pelo sucesso e pelo imaginário americano, mas também questiona a ideia de que estar perto da indústria significa necessariamente estar perto da felicidade. Adéla chegou ao lugar que simbolizava o sonho, mas percebeu que o sonho também cobra.
“Ain’t In LA” virou o grande cartão de visitas
“Ain’t In LA” é a faixa que melhor resume o momento de Adéla. A música viralizou, levou a cantora à Billboard Hot 100 pela primeira vez e também marcou sua ascensão internacional, inclusive com desempenho forte na Billboard Philippines Hot 100. Segundo a Billboard Philippines, a canção estreou na Hot 100 dos Estados Unidos na posição 85 e foi apontada como a primeira entrada de uma artista eslovaca na parada.
O clipe, dirigido por Fred Gervais e gravado em Bratislava, também ajuda a fechar o conceito da música. Em vez de filmar a fantasia diretamente em Los Angeles, Adéla reconstrói esse imaginário a partir de sua cidade natal. A escolha é inteligente porque transforma a distância em discurso. A estrela pop que ela sonhava ser não nasceu em Hollywood. Nasceu olhando para Hollywood de longe.
Por que o álbum se chama “Prima”?
O título do álbum é uma das escolhas mais certeiras do projeto. “Prima” significa “primeira”, o que já conversa com o fato de este ser o álbum de estreia de Adéla. Mas a palavra também remete à expressão “prima ballerina”, usada para se referir à bailarina principal de uma companhia. Antes da música pop, Adéla teve formação em balé, e essa disciplina aparece como parte essencial da imagem que ela tenta construir agora.

A própria artista já explicou que quer ser, um dia, a “prima” do pop. A frase pode soar ambiciosa, mas esse é justamente o ponto. “Prima” não é um álbum tímido. Ele quer anunciar uma personagem disposta a ocupar o centro do palco, mesmo que ainda esteja descobrindo qual é exatamente a sua linguagem.
Um álbum de estreia sobre virar estrela
“Prima” talvez não seja o trabalho definitivo de Adéla, mas funciona muito bem como apresentação. O disco tem exagero, pose, vulnerabilidade, referências demais, boas ideias e uma fome evidente de grandeza. Em alguns momentos, as influências aparecem mais fortes do que a identidade da própria cantora. Em outros, como em “Ain’t In LA”, a mistura finalmente encontra um ponto de vista particular.

A crítica da Pitchfork destacou justamente essa tensão: “Prima” carrega lampejos de um universo próprio, especialmente em faixas como “KGB”, “Marijuana” e no vídeo de “Ain’t In LA”, mas também levanta a pergunta sobre até que ponto Adéla conseguirá transformar referências em assinatura.
Ainda assim, há algo muito interessante em acompanhar uma artista nesse estágio. “Prima” não mostra uma estrela completamente pronta. Mostra uma estrela em construção, consciente da câmera, da indústria, do algoritmo, da comparação e da expectativa. Adéla sabe que precisa ser lembrada. E, para isso, constrói um álbum que funciona quase como manifesto: ela quer ser vista, ouvida e discutida.
No fim, “Prima” é exatamente isso: o primeiro grande passo de uma artista que não atravessou um reality show, mudou de país, assinou com uma grande gravadora e estudou obsessivamente a cultura pop para ficar nos bastidores.
Adéla ainda pode refinar sua identidade, mas já deixou claro qual é sua intenção. Ela não quer apenas entrar no jogo. Ela quer o centro do palco.




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