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Giovanna Gold explica como a trilha sonora muda uma cena: “A trilha arrepia”

Foto do escritor: Cauã Rodrigues
Cauã Rodrigues
há 2 dias
4 min de leitura

A trilha sonora pode transformar completamente a forma como uma cena é percebida pelo público. Para a atriz Giovanna Gold, conhecida por trabalhos marcantes na televisão e no teatro brasileiro, a música não substitui a atuação, mas funciona como uma força complementar capaz de ampliar a emoção, criar contexto e aproximar o espectador da jornada do personagem.


Ao refletir sobre o tema, Giovanna destacou que o ator, na maioria das vezes, não sabe qual música será colocada sobre a cena depois da gravação. Ele interpreta a partir da história, do texto, do figurino, do cenário e da emoção proposta pela direção. A trilha costuma entrar posteriormente, no processo de edição, e é justamente nesse momento que a cena ganha uma nova camada de significado.


Foto/Reprodução
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Segundo a atriz, uma cena aparentemente simples pode mudar completamente quando a música certa aparece. Um personagem triste, sentado à mesa de trabalho e sem inspiração, pode ter sua solidão aprofundada pela trilha. Da mesma forma, filmes como “Interestelar” usam a música para elevar a experiência visual a uma dimensão quase espiritual, fazendo o público sentir a grandiosidade da cena.


A trilha como parte do trabalho em equipe

Para Giovanna Gold, o audiovisual e o teatro são, acima de tudo, trabalhos coletivos. Mesmo quando um artista acumula funções como direção, atuação, roteiro e produção, ele está desempenhando papéis que normalmente pertencem a diferentes profissionais. Nesse processo, a trilha sonora entra como mais uma assinatura criativa fundamental.


A atriz resume essa ideia ao afirmar que “a trilha é um terceiro profissional”. Ou seja, ela não é apenas um detalhe colocado ao fundo. A música participa da construção da cena, dialoga com a atuação e ajuda a conduzir o olhar emocional do público.


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Giovanna também citou Quentin Tarantino como exemplo de diretor que trabalha de maneira diferente. Em muitos casos, Tarantino já escolhe as músicas antes da gravação, permitindo que os atores atuem a partir daquele ritmo, daquela atmosfera e daquele tom. Nesse caso, a trilha não entra apenas depois: ela já nasce integrada à cena.


Quando a música vira roteiro

No teatro, a relação entre ator e trilha pode ser ainda mais física. Giovanna relembrou sua experiência em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, com direção de Antunes Filho, um dos grandes nomes da história do teatro brasileiro. Em uma das cenas, ela precisava quebrar totalmente o clima sombrio anterior, entrando como uma cigana com pandeiro. A música, nesse caso, fazia parte da respiração da personagem e marcava o tempo da interpretação.


Ela também contou sobre outra peça em que ficava muito tempo imóvel em cena até o momento exato de se mexer, guiada por uma música do Pink Floyd. Para a atriz, aquela trilha era praticamente o roteiro da cena. Não era apenas acompanhamento: era o sinal, a estrutura e a pulsação da performance.


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Esse tipo de experiência mostra que a trilha sonora pode orientar o corpo do ator. Ela cria pausas, ritmos internos e pontos de virada. Mas Giovanna faz uma observação importante: a música não faz o trabalho pelo ator. O intérprete precisa estar conectado à jornada do personagem e interagir com aquela música de forma orgânica.


A trilha também cria memória afetiva

Na televisão, a trilha sonora tem outro poder: criar identificação imediata com o público. Giovanna lembrou que, em uma novela, quando determinado tema musical começa a tocar, o espectador já entende que aquele personagem ou casal está prestes a aparecer. A música vira uma espécie de assinatura emocional.


Um exemplo marcante citado por ela é a personagem Zefa. Sozinha, Zefa era acompanhada por “Tocando em Frente”, de Almir Sater, música que carrega versos como “ando devagar, porque já tive pressa”. Para Giovanna, essa trilha tinha uma força muito especial, porque conectava a personagem a uma emoção profunda, verdadeira e imediatamente reconhecível.


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A atriz contou ainda que, quando se mudou para São Paulo para fazer “Chiquititas”, viveu uma coincidência simbólica. Depois de meses de teste, aprovação, contratação e mudança, chegou à cidade com o carro cheio de malas e o cachorro junto. Ao se instalar em casa e tomar banho, ouviu do lado de fora justamente a música “Tocando em Frente”. Para ela, foi como se a trilha da novela também se tornasse a trilha da própria vida.


Quando a trilha exagera, ela também cansa

Apesar de defender a importância da música, Giovanna Gold também ressalta que a trilha precisa ter equilíbrio. Assim como uma interpretação exagerada pode cansar, um figurino exagerado pode tirar o foco e um cenário exagerado pode pesar, uma trilha sonora usada em excesso também pode prejudicar a cena.


A atriz lembra que tudo depende de bom gosto, economia e direção. Uma música muito presente o tempo todo pode roubar a emoção em vez de ampliá-la. Por isso, a trilha precisa estar alinhada à proposta da obra e à linha de interpretação dos atores.


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Essa visão ajuda a entender por que a trilha sonora é uma arte tão delicada. Quando funciona, ela parece inevitável. O público sente, se emociona e muitas vezes nem percebe conscientemente o trabalho da música. Mas, quando passa do ponto, ela se torna invasiva e pode quebrar a experiência.


A música como dimensão emocional

No fim, Giovanna Gold enxerga a música como algo muito maior do que um recurso técnico. Para ela, existe uma dimensão quase espiritual na forma como a música afeta o corpo, a memória e a emoção humana. A atriz chega a relacionar a música ao conceito de Fibonacci, à ideia de harmonia e à possibilidade de o universo ter uma estrutura profundamente musical.


Essa percepção explica por que a trilha sonora é tão poderosa no audiovisual. Ela não apenas acompanha uma imagem. Ela abre caminhos emocionais, cria ressonância, guia a percepção do público e, muitas vezes, transforma uma cena comum em um momento inesquecível.


Como resume a própria experiência de Giovanna, a trilha sonora é sorte, escolha, sensibilidade e trabalho coletivo. Quando a música certa encontra o personagem certo, tudo muda: o público reconhece, sente e se conecta. E é nesse instante que a cena arrepia.


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