Lizzo diz que desempenho de novo álbum nas paradas foi “destruidor para a alma”
- Cauã Rodrigues

- há 2 dias
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Cantora revelou que baseou o próprio valor nos números de “Bitch” por 24 horas e precisou reformular sua visão sobre sucesso após o disco ficar fora da Billboard 200
Lizzo falou abertamente sobre a frustração provocada pelo desempenho comercial de “Bitch”, seu primeiro álbum de estúdio desde “Special”, lançado em 2022. Em entrevista ao podcast The Swiftologist, apresentado por Zachary Hourihane, a cantora admitiu que esperava uma recepção muito maior para o projeto e ficou profundamente abalada ao perceber que o disco não havia entrado na Billboard 200.
A artista contou que chegou ao lançamento animada por ter atingido sua meta de pré-venda, mas sentiu o impacto assim que os primeiros números começaram a aparecer. Embora não esperasse necessariamente uma estreia gigantesca, Lizzo reconheceu que o resultado ficou muito distante do que havia imaginado para um repertório que considera um dos melhores de sua carreira.
“Houve cerca de 24 horas da minha vida em que baseei meu sucesso e meu valor próprio em um número. Acho que isso foi destruidor para a alma”, desabafou.
Segundo dados da Luminate citados pela imprensa norte-americana, “Bitch” movimentou aproximadamente 5 mil unidades equivalentes em sua primeira semana nos Estados Unidos, sendo cerca de 3 mil vendas puras. O desempenho não foi suficiente para colocar o álbum na Billboard 200 e representou uma queda expressiva em relação a “Special”, que estreou na segunda posição da parada em 2022.
O contraste também apareceu no desempenho inicial das músicas. Até o fim de junho, “Don’t Make Me Love U” acumulava cerca de 2 milhões de reproduções sob demanda nos Estados Unidos, enquanto a faixa-título registrava aproximadamente 1,8 milhão. “Bitch” tornou-se, assim, o primeiro álbum de Lizzo desde “Big Grrrl Small World”, de 2015, a não aparecer no principal ranking de discos do país.

Cantora precisou separar o valor artístico dos números
Lizzo revelou que vinha trabalhando no projeto desde setembro de 2023 e acreditava que as músicas teriam uma resposta imediata do público. Quando isso não aconteceu, passou alguns dias estressada e triste, tentando compreender por que um trabalho no qual depositava tanta confiança não estava encontrando a audiência esperada.
A cantora afirmou que o momento a obrigou a reconhecer duas mudanças simultâneas: a transformação da indústria musical nos últimos anos e a alteração de sua própria relação com o público. Para ela, a maneira como lançamentos são descobertos atualmente, fortemente condicionada por algoritmos, vídeos curtos e tendências passageiras, tornou mais difícil prever quais projetos realmente chegarão aos ouvintes.
Antes mesmo da estreia, Lizzo já havia criticado o funcionamento das redes sociais, argumentando que a distribuição desorganizada de conteúdos faz com que parte do público não saiba quando um artista está lançando uma música ou um álbum. Ainda assim, ela reconheceu que atribuir todo o resultado às plataformas seria insuficiente e que também precisava lidar com uma nova fase de sua imagem pública.
O processo de recuperação começou quando a artista passou a questionar se ainda sentia orgulho do álbum, independentemente da posição alcançada nas paradas.
“Tive que reformular e pensar: ‘Você não está orgulhosa de si mesma?’. E eu respondi: ‘Sim, realmente estou’. Estou animada para cantar essas músicas e feliz porque elas finalmente foram lançadas.”
O apoio de SZA também foi importante durante esse período. Lizzo contou que recebeu uma ligação da amiga, que percebeu sua fragilidade e tratou de afastar a ideia de que o desempenho do disco representava um fracasso pessoal. A conversa ajudou a cantora a retomar uma visão que já defendia anteriormente: números podem medir vendas e alcance, mas não resumem completamente o impacto de uma obra.
Após refletir, meditar e conversar com pessoas próximas, Lizzo decidiu enxergar “Bitch” como uma etapa de reconstrução, e não como o resultado definitivo de sua carreira. A cantora já voltou ao estúdio e afirmou que o desempenho abaixo das expectativas não diminuiu sua vontade de continuar criando.
“‘Bitch’ é apenas um degrau na direção certa. Eu precisei corrigir o rumo da minha carreira. Não tenho mais medo do fracasso porque já venci.”
Processos e mudança de imagem também cercam o lançamento
O retorno de Lizzo acontece em um momento mais delicado do que aquele vivido durante os sucessos de “Truth Hurts”, “Good as Hell” e “About Damn Time”. Em 2023, três ex-dançarinas entraram com uma ação judicial contra a cantora, sua empresa de produção e uma integrante de sua equipe, apresentando acusações relacionadas a assédio sexual e ambiente de trabalho hostil.
Lizzo nega as acusações e afirma que elas não correspondem à realidade. Sua defesa também sustenta que testemunhas ligadas à turnê contradizem os relatos apresentados pelas autoras do processo. Parte das alegações, incluindo acusações relacionadas à gordofobia, foi rejeitada judicialmente, enquanto outros pontos continuam em disputa.
As ex-dançarinas afirmam que nunca tiveram a intenção de promover uma campanha para destruir a carreira da cantora, mas defendem que o processo é necessário para que sua antiga empregadora seja responsabilizada. Profissionais que permaneceram trabalhando com Lizzo, por outro lado, contestam essa visão e dizem ter sido surpreendidos pelas acusações.
Embora não seja possível estabelecer uma relação direta entre o processo e as vendas do novo álbum, a controvérsia atingiu uma parte importante da imagem pública construída por Lizzo. A cantora havia se tornado conhecida não apenas pela música, mas também por mensagens sobre autoestima, positividade corporal, representatividade e valorização de mulheres negras e de corpos grandes.

Sua transformação física também passou a ser analisada de forma intensa nas redes sociais. Lizzo explicou que começou a perder peso em 2023, durante um período de depressão, e encontrou em atividades como Pilates uma forma de processar o que estava vivendo. Desde então, tem afirmado que a mudança está ligada à busca por saúde e bem-estar, e não a uma tentativa de atender às expectativas do mercado.
A combinação entre acusações judiciais, mudanças na imagem, afastamento prolongado e transformações na indústria criou um cenário bastante diferente daquele de 2022, quando “Special” foi lançado. Ainda assim, Lizzo afirma que não pretende permitir que resultados comerciais definam completamente sua trajetória.
Ao falar sobre “Bitch”, a cantora reconhece a decepção, mas também tenta impedir que o momento se transforme em uma sentença sobre seu futuro. O disco pode não ter alcançado as posições esperadas, porém marcou seu retorno ao estúdio, aos lançamentos e à decisão de continuar produzindo mesmo sem a garantia de repetir os números de suas eras anteriores.




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