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Um ano sem Preta Gil: carreira, coragem e legado de uma artista que nunca andou só

  • Foto do escritor: Cauã Rodrigues
    Cauã Rodrigues
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Um ano depois da morte de Preta Gil, a saudade se transformou em memória pública. Nesta segunda-feira, 20 de julho, data que marca um ano da partida da cantora, a Globo lança duas produções dedicadas à sua trajetória: o filme documental “Preta Gil – Eu Não Ando Só”, exibido na TV Globo, e a série documental “Meu Nome é Preta”, disponível no Globoplay.


As duas obras fazem parte do projeto “Quanto Mais Preta, Melhor” e ajudam a contar uma história que não pode ser resumida à doença, à dor ou aos últimos meses de vida. Preta foi cantora, comunicadora, empresária, produtora, filha, mãe, amiga, artista de Carnaval e uma figura que transformou afeto em linguagem pública.



“Preta Gil – Eu Não Ando Só” nasceu de um desejo da própria artista de registrar sua jornada após o diagnóstico de câncer de intestino, em janeiro de 2023. A produção reúne imagens captadas por celular, muitas feitas pela própria Preta, além de registros gravados por familiares e amigos durante o tratamento.


Já “Meu Nome é Preta” revisita sua vida por outro caminho, reunindo depoimentos, arquivos pessoais e lembranças de pessoas que dividiram com ela diferentes fases da carreira e da intimidade. Participam das produções nomes como Gilberto Gil, Bela Gil, Flora Gil, Francisco Gil, Carolina Dieckmann, Regina Casé, Gominho, Ivete Sangalo e Ana Carolina.


Uma artista que fez da própria existência uma assinatura

Filha de Gilberto Gil e afilhada de Gal Costa, Preta Gil iniciou sua carreira musical cercada por comparações inevitáveis. O sobrenome abria portas, mas também criava uma régua quase impossível de cumprir. Em vez de tentar caber no formato esperado para uma herdeira da MPB, Preta escolheu outro caminho: misturou pop, axé, samba, pagode, Carnaval, humor, desejo e presença de palco. Sua obra nunca coube perfeitamente em um único gênero, e talvez seja justamente aí que esteja sua força.


O primeiro álbum, “Prêt-à-Porter”, lançado em 2003, já apresentava uma artista disposta a enfrentar padrões. A capa, em que Preta aparecia nua usando apenas uma fita do Senhor do Bonfim, foi um gesto de afirmação corporal em uma indústria que historicamente cobrou das mulheres um tipo específico de aparência. Antes que discussões sobre gordofobia, representatividade e liberdade corporal ocupassem o centro das redes sociais, Preta já usava o próprio corpo como discurso.

Capa de “Prêt-a-Porter”, lançado em 2003
Capa de “Prêt-a-Porter”, lançado em 2003

Ao longo dos anos, músicas como “Sinais de Fogo”, “Stereo”, “Meu Corpo Quer Você”, “Só o Amor” e “Vá se Benzer” ajudaram a formar um repertório reconhecível, mas Preta também construiu sua identidade nos palcos. O Baile da Preta e o Bloco da Preta funcionavam como uma extensão de sua personalidade: uma festa onde cabiam música brasileira, diversidade, amigos, convidados, foliões e uma plateia que se sentia parte do espetáculo. A mistura não era falta de definição. Era a definição dela.


Afeto, Carnaval e representatividade

Antes de se consolidar como cantora, Preta trabalhou com publicidade e produção audiovisual. Foi sócia da cineasta Monique Gardenberg na Dueto Filmes e participou da realização de trabalhos ligados a artistas como Ivete Sangalo, Caetano Veloso, Marina Lima, Barão Vermelho e Martinho da Vila. Mais tarde, ampliou sua atuação como empresária, apresentadora, produtora e incentivadora de projetos voltados à diversidade. Essa multiplicidade ajuda a explicar por que seu legado vai além da discografia.


Preta entendia a própria visibilidade como ferramenta. Ela falou abertamente sobre corpo, sexualidade, racismo, maternidade, relacionamentos, espiritualidade e saúde. Também apoiou mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+ e artistas que ainda buscavam espaço em uma indústria muitas vezes excludente.


Por isso, sua presença pública sempre teve algo de acolhimento e enfrentamento ao mesmo tempo: ela sabia rir, provocar, proteger e se posicionar.


Foto: Reprodução/Instagram @pretagil
Foto: Reprodução/Instagram @pretagil

Essa ligação com o Carnaval também foi reconhecida oficialmente. Após sua morte, o trajeto dos megablocos no Rio de Janeiro recebeu o nome de Circuito de Blocos de Carnaval de Rua Preta Gil, uma homenagem à participação da artista na retomada e popularização dos grandes blocos de rua no centro da cidade. O Bloco da Preta se tornou um dos símbolos dessa história, reunindo multidões e transformando o Carnaval em espaço de celebração, liberdade e encontro.


Os documentários ajudam a preservar uma história maior que a doença

Preta recebeu o diagnóstico de câncer no intestino em janeiro de 2023 e morreu em 20 de julho de 2025, aos 50 anos, nos Estados Unidos, onde realizava uma nova etapa do tratamento. Mesmo durante o período mais difícil, continuou transformando a experiência pessoal em conversa pública sobre diagnóstico, medo, fé, ciência, amor e finitude. A forma como ela compartilhou partes do processo ajudou muitas pessoas a falarem sobre saúde com menos vergonha e mais atenção.


Mas as novas produções chegam justamente para impedir que sua memória fique presa apenas à doença. “Preta – Eu Não Ando Só” mostra a rede de apoio que cercou a artista nos últimos anos, enquanto “Meu Nome é Preta” reconstrói uma vida inteira: infância, maternidade, carreira musical, empreendedorismo, Carnaval, amizades, embates públicos e conquistas.


A diretora Mini Kerti explicou que a série parte de acontecimentos marcantes, como a morte do irmão mais velho de Preta, a capa do primeiro disco, a criação da Noite Preta e depois do Bloco da Preta.


Preta Gil (Instagram)
Preta Gil (Instagram)

O título “Eu Não Ando Só” resume uma das maiores marcas de Preta Gil. Ela construiu uma vida em rede. Família, amigos, equipe, fãs, parceiros de palco e profissionais dos bastidores faziam parte de sua maneira de existir. Não por acaso, as homenagens após sua morte vieram de tantos lugares diferentes: da música, da televisão, do Carnaval, dos movimentos sociais, da moda, da internet e da vida íntima de quem conviveu com ela.


Francisco Gil e as homenagens de um ano sem Preta

Nesta segunda-feira, Francisco Gil emocionou o público ao homenagear a mãe nas redes sociais. O cantor escreveu sobre como tem tentado exercitar mais a presença de Preta do que a ausência, lembrando que a casa se encheu de fotos, quadros, objetos, santos e memórias dela. Ele também falou sobre o sentimento de responsabilidade que carrega ao sentir o olhar, as broncas, a alegria e o orgulho da mãe mesmo depois da despedida.


A homenagem de Francisco se soma a outras manifestações de amigos próximos, como Gominho, Carolina Dieckmann, Jude Paulla e Malu Barbosa, que relembraram a generosidade, o bom humor, a força e a presença constante de Preta em suas vidas. Mais do que uma artista querida, ela foi descrita por muitos como alguém que sabia criar família em torno de si. Esse talvez seja um dos motivos pelos quais sua ausência ainda parece tão coletiva.


Preta Gil e família (Arquivo pessoal)
Preta Gil e família (Arquivo pessoal)

Também nesta segunda-feira, Salvador recebe uma missa aberta ao público em homenagem a Preta Gil, no Santuário das Obras Sociais de Santa Dulce dos Pobres, no bairro do Bonfim. A escolha do Dia do Amigo para a celebração conversa diretamente com a imagem que a artista construiu ao longo da vida: alguém lembrada pelo afeto, pela generosidade e pela capacidade de manter pessoas próximas.


Um legado que virou prêmio, circuito e música

O legado de Preta Gil também ganhou formas concretas. Além do circuito de Carnaval no Rio, o Prêmio Potências anunciou que seu troféu passaria a se chamar Troféu Preta Gil, reconhecendo a importância da cantora no fortalecimento de profissionais negros e de iniciativas ligadas à representatividade.


A memória da artista também chegou à música: em 2026, os Gilsons lançaram o álbum “Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão”, com a faixa “Minha Flor”, dedicada a Preta.


Em dezembro de 2025, Preta também foi capa da Billboard Brasil em uma edição ligada à homenagem do WME Awards by Billboard, premiação da qual foi embaixadora e apresentadora desde a primeira edição. A homenagem reforçou as várias frentes de sua trajetória: cantora, atriz, comunicadora, empresária, publicitária e articuladora de projetos. Preta não apenas falava sobre presença feminina na indústria.


Ela criava espaços, conectava pessoas e emprestava sua visibilidade para que outras mulheres também fossem vistas.


Preta Gil (Billboard Brasil)
Preta Gil (Billboard Brasil)

Um ano depois, lembrar Preta Gil é lembrar de uma artista que saiu da sombra do sobrenome, enfrentou cobranças cruéis sobre o corpo, falou de sexualidade com liberdade, transformou o tratamento contra o câncer em diálogo público e usou a própria alegria como forma de resistência.


Sua carreira não foi construída apenas por hits, programas, blocos ou aparições midiáticas. Foi construída por presença.


Preta Gil deixou músicas, imagens, frases, carnavais, amizades e exemplos de coragem. Mas talvez seu maior legado esteja em algo menos mensurável: ela ensinou que existir com verdade também pode ser uma obra.


Um ano sem Preta ainda dói, mas sua história segue atravessando o tempo do jeito que ela parecia gostar: com música, afeto, memória e muita gente caminhando junto.

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