Gui Ventura fala sobre viver Gilberto Gil no palco: “A gente precisa caminhar com fé e abraçados com a liberdade”

Gui Ventura cresceu cercado por arte. Nascido em Santa Luzia, na periferia, ele lembra que a criação artística sempre esteve presente em casa: a mãe trabalhava com artesanato e costura, o irmão mais velho era artista plástico e compositor, o irmão do meio era instrumentista e o pai colecionava vinis. Foi nesse ambiente, entre música, imagem, artesanato e memória afetiva, que ele começou a construir uma relação com a arte antes mesmo de entendê-la como profissão.

Hoje, Gui se divide entre diferentes linguagens. É músico, compositor, instrumentista, artista plástico e ator. Para ele, tudo começou como brincadeira, ocupação cotidiana e impulso natural. Com o tempo, porém, a arte também se tornou ofício. Vindo de uma família periférica, ele percebeu cedo que criar também podia significar contribuir financeiramente em casa, seja vendendo artesanato, roupas, desenhos ou música.
A arte como destino inevitável
Apesar de ter tentado seguir outros caminhos, Gui reconhece que sempre voltou para a arte. Ele cita uma frase de Fernanda Montenegro sobre jovens atores, dizendo que, se alguém conseguir desistir da arte, talvez deva desistir; mas, se morrer por não fazer, precisa voltar. De certa forma, foi o que aconteceu com ele. Mesmo tendo passado por outros empregos, a infância, a TV, o palco e o fascínio pela possibilidade de ser outro continuaram chamando.

Essa relação ajuda a entender a entrega do artista em “Gilberto Gil, o Musical”. Mais do que interpretar um dos maiores nomes da música brasileira, Gui precisou revisitar suas próprias referências, sua formação musical e a maneira como enxerga o papel da arte na vida. O encontro com Gil, nesse sentido, não parece ter começado apenas no teste ou no processo de preparação. Ele já vinha de antes, como influência musical, estética e espiritual.
Viver Gilberto Gil sem cair na caricatura
Antes mesmo do musical, Gui já era um grande admirador de Gilberto Gil. Ele ouvia suas músicas, assistia entrevistas, documentários e já havia lido sua biografia. Mas, ao receber o desafio de interpretá-lo no palco, precisou revisitar tudo isso com outro olhar: não mais apenas o de fã ou pesquisador, mas o de alguém que precisava encontrar a humanidade por trás de uma figura quase mítica.

Para ele, o grande risco seria construir uma imitação caricata. Por isso, o caminho foi buscar o Gil humano, não apenas o ícone equilibrado, sábio e luminoso que o público costuma ver hoje. Gui fala sobre luz e sombra, sobre individuação e sobre a aceitação de quem se é. Em sua leitura, uma das grandes chaves de Gilberto Gil está justamente na resignação: não como acomodação, mas como consciência de si.
Essa percepção também atravessou o próprio intérprete. Ao estudar Gil, Gui diz ter acessado algo que já vinha trabalhando em si mesmo: a necessidade de aceitar o que existe de bom e de difícil dentro da própria identidade. Afinal, só é possível transformar aquilo que primeiro conseguimos reconhecer.
Semelhanças que vão além da aparência
Gui conta que, antes mesmo do musical, já ouvia comentários sobre sua semelhança com Gilberto Gil. Parte disso vinha da influência musical assumida em seu trabalho autoral, especialmente no álbum “Dois Lados”, marcado pela presença da escola musical de Gil e da Tropicália. Ele chegou a ser convidado para uma turnê em Portugal em comemoração aos 50 anos da Tropicália, justamente por causa dessa influência em sua sonoridade.

Mas, para além da aparência, Gui acredita que há algo no jeito, na delicadeza, na composição e até em certa energia feminina que pode aproximá-lo de Gil. Ele também cita coincidências simbólicas: ambos são cancerianos, compositores e atravessados por uma sensibilidade que aparece tanto na música quanto na forma de estar no mundo.
O tempo espiralar e a própria história
“Gilberto Gil, o Musical” não segue uma linha cronológica convencional. A montagem trabalha com uma ideia de tempo inspirada em conceitos do povo iorubá, em que passado, presente e futuro se encontram em espiral. Para Gui, essa estrutura também dialogou com algo que já fazia parte de seu próprio processo artístico.

Ele lembra que seu trabalho mais recente, “Ou Alguma Coisa Sobre Amor”, já trazia essa percepção de tempo em sua construção poética. Em uma de suas canções, “Para você não se esquecer”, o adulto encontra a própria criança e os dois decidem caminhar juntos, sem que um seja mais importante que o outro. A peça, então, chegou como um encontro com uma energia que já estava ao redor dele: uma cosmovisão africana, espiralar, em que passado e presente caminham juntos.
Grace Passô e outras inspirações
Fora do universo do musical, Gui também tem se alimentado de outras referências artísticas. Ele cita o espetáculo “Piaf”, com Laila Garin, como uma experiência arrebatadora e uma verdadeira aula de presença cênica. Mas destaca especialmente Grace Passô como uma de suas grandes inspirações atuais.

Para Gui, Grace é uma artista fora da curva: escritora, dramaturga, atriz, diretora e uma presença marcada pela originalidade, pelo engajamento político e pelo brilhantismo artístico. Ele ressalta que ela já era uma artista premiada e admirada no teatro muito antes dos reconhecimentos recentes no cinema, e afirma que sua obra segue sendo uma referência importante para pensar arte com identidade, pensamento e potência.
Música autoral e o tempo certo das coisas
Gui também fala sobre sua trajetória musical e admite que já foi mais ansioso com a ideia de “aceleração de carreira”. Hoje, porém, tem acreditado mais nos processos e em uma construção que seja saudável e faça sentido para ele. No ano passado, começou a gestar um novo trabalho autoral, mas o projeto acabou pausado por falta de recursos, convites para o audiovisual e questões de tempo.

Em vez de enxergar a pausa como fracasso, ele entende que talvez o tempo tenha jogado a favor. Agora em São Paulo, Gui sente que pode encontrar os produtores ideais para a estética que deseja construir. A expectativa é que o novo trabalho seja lançado no próximo ano, possivelmente no segundo semestre, com calma e cuidado. Para ele, um disco também é uma fotografia de quem se é em determinado momento e, se demora demais, corre o risco de virar uma imagem antiga.
Fé, liberdade e memória
Quando pensa no que gostaria que o público levasse após assistir ao espetáculo, Gui escolhe dois sentimentos: fé e liberdade. Para ele, a tônica da peça está em “andar com fé”, entendendo que a vida apresenta situações boas e ruins, mas que é preciso olhar para dentro, perceber o que impulsiona o coração e seguir acreditando.

A liberdade, porém, aparece como outra chave fundamental. Gui acredita que Gilberto Gil ofereceu ao Brasil uma espécie de pérola ligada à possibilidade de existir como se é, aberto à vida, ao universo e às formas diversas de expressão. Ao mesmo tempo, ele faz questão de lembrar que liberdade não deve ser confundida com ausência de ética. Para ele, a liberdade encontra limite no respeito ao outro, à individualidade e à diversidade.
Essa reflexão ganha ainda mais força porque o musical também rememora os tempos de chumbo da ditadura. Gui destaca a importância de lembrar o que significa viver em um país sem liberdade de expressão, sem liberdade política e marcado por desaparecimentos provocados pela força repressiva do Estado. Em sua visão, a peça também convida o público a valorizar a democracia e a história cultural do Brasil.
Um convite para assistir “Gilberto Gil, o Musical”
Ao final da conversa, Gui convida o público para assistir “Gilberto Gil, o Musical”, espetáculo que reúne 34 atores no palco, uma orquestra e direção de Miguel Falabella. Para ele, a montagem é uma oportunidade de restabelecer memórias sobre a história do Brasil, a cultura brasileira e as escolhas que fazemos como sociedade.

Mais do que uma homenagem a Gilberto Gil, o espetáculo parece atravessar também a trajetória de quem o interpreta. Gui Ventura encontra em Gil não apenas um personagem, mas um espelho possível para pensar origem, arte, espiritualidade, liberdade e futuro.
No fim, talvez seja essa a força do encontro: um artista periférico, múltiplo e atravessado por tantas linguagens interpretando outro artista que fez da mistura, da fé e da liberdade uma forma de existir. Gui não tenta apenas parecer Gil. Ele tenta entender o que Gil ainda ensina sobre ser inteiro no mundo.




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