Santos Film Fest agita a cidade com mais de 120 filmes, sessões gratuitas e premiação regional
- Cauã Rodrigues

- há 1 dia
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O 12º Santos Film Fest transformou Santos em um grande circuito de cinema entre os dias 18 e 26 de agosto. Com programação gratuita, o festival ocupou 16 espaços da cidade, exibiu mais de 120 filmes e reuniu produções de 20 estados brasileiros e cinco países, consolidando uma edição marcada por salas cheias, homenagens, debates, atividades formativas, música, clássicos, pré-estreias e forte participação do público.

A edição de 2026 começou com fôlego de grande evento. A abertura, realizada no Cine Roxy, reuniu mais de 700 pessoas em duas sessões, com tapete vermelho, presença de artistas, realizadores, estudantes, representantes da cultura e público em geral. A noite teve a estreia do documentário “Artacho Jurado, Sinfonia de um Arquiteto” e a pré-estreia nacional do terror “O Sorveteiro”, dirigido por Eli Roth, em parceria com a Diamond Films.
Cinema espalhado por Santos
Mais do que uma mostra concentrada em um único espaço, o Santos Film Fest se espalhou pela cidade. A programação passou por locais como Cine Roxy, Cinemateca de Santos, Cine Arte Posto 4, UniSantos, Sesc Santos, Concha Acústica Vicente de Carvalho, praças, escolas municipais e outros pontos culturais. A proposta reforçou uma das marcas do festival: aproximar o cinema das pessoas, levando filmes, debates e encontros para diferentes públicos e territórios.

A programação também apostou em experiências para além das sessões tradicionais. Entre os destaques estiveram a Virada Cinematográfica Marilyn Monroe, que atravessou a madrugada na Cinemateca de Santos com exibições especiais e café da manhã, a comemoração dos 100 anos de “A General”, clássico de Buster Keaton, com trilha sonora ao vivo na Concha Acústica, além de feira de mídia física, bate-papos, homenagens e atividades de formação.
Abertura celebrou memória, arquitetura e cultura santista
Um dos momentos mais emocionantes da abertura foi a entrega da Estrela da Calçada da Fama do Cine Roxy a Renato Di Renzo, artista plástico, cenógrafo, professor e figura ligada a projetos importantes de arte, inclusão e saúde mental. Durante entrevistas no festival, Renato falou sobre o cinema como memória, educação e experiência de vida. Para ele, a própria existência é atravessada por imagens, cenas e encontros, como se todos fossem feitos de episódios, atos e acontecimentos.

Ao lembrar filmes como “Bye Bye Brasil”, Renato destacou a força do cinema como uma forma de enxergar o país, suas contradições, sua cultura popular e suas transformações. A fala combina diretamente com o espírito do Santos Film Fest: um festival que não trata o cinema apenas como entretenimento, mas como linguagem capaz de guardar histórias, provocar reflexão e criar pontes entre gerações.
Produção da Baixada Santista ganha destaque
A premiação final reforçou a força do cinema regional. Na Mostra Regional Baixada Santista, “Daria um Filme”, de Matheus Tobias, de Peruíbe, venceu Melhor Filme pelo júri e também conquistou o Voto Popular. Sander Newton, de Cubatão, levou Melhor Direção por “Meu Coração Amanheceu Pegando Fogo”, enquanto “Brandina Fiusa – Espelhos do Passado”, de Kauê Nunes, de Santos, recebeu Menção Honrosa.

Na Mostra Universitária Regional, o curta “Interlúdio”, dirigido por Bruna Matos e Lari Costa, foi um dos grandes destaques. A produção conquistou Melhor Direção e também levou o Voto Popular, enquanto “Mono no Aware”, de Matheus Antunes Duarte, foi escolhido Melhor Filme pelo júri. “Até o Sol se Pôr”, de Alícia Munhoz, recebeu Menção Honrosa.
“Interlúdio” emociona público e diretoras
Em entrevista durante o festival, Bruna Matos e Lari Costa explicaram que “Interlúdio” é um falso documentário sobre Clara, uma mãe que começa a se perceber para além do papel de cuidadora. A inspiração veio de relatos familiares e de conversas da equipe sobre maternidade, feminilidade, cuidado e redescoberta. Para as diretoras, o filme fala sobre o intervalo entre cuidar e se reencontrar.

A recepção do público teve um peso especial para a equipe. Bruna e Lari destacaram que o Santos Film Fest foi a primeira oportunidade de reunir uma plateia da Baixada Santista para assistir ao filme junto com realizadores, familiares, amigos e pessoas ligadas ao cinema da região. O Voto Popular confirmou que a história encontrou eco fora da equipe, especialmente entre mães e espectadores que se reconheceram no afeto e na delicadeza da narrativa.
Antes da premiação no Santos Film Fest, “Interlúdio” já havia sido selecionado para o Busan Inter-City Film Festival, na Coreia do Sul, representando Santos em uma mostra internacional. O curta, produzido por estudantes da UniSantos, acompanha uma mãe de um filho com Transtorno do Espectro Autista e aborda maternidade, cuidado e identidade.
Cinema como espaço de saúde mental e resiliência
Outro tema que atravessou a programação foi a saúde mental. Em conversa sobre o filme “Looping”, os realizadores Hugo Baroni e Gustavo Carvalho falaram sobre isolamento, luto, ciclos emocionais e a dificuldade de pedir ajuda. Para eles, o cinema pode tocar pessoas que estão atravessando momentos difíceis, especialmente em uma geração marcada pelo excesso de telas, solidão e relações mediadas pelo celular.

A fala dos realizadores conecta o festival a uma dimensão mais humana do audiovisual. Não se trata apenas de exibir filmes, mas de criar espaços para que histórias íntimas encontrem público. Quando uma pessoa que viveu uma perda se emociona com um curta, ou quando mães se veem refletidas em uma personagem como Clara, o cinema deixa de ser apenas linguagem e se torna encontro.
Premiação reuniu filmes do Brasil e do exterior
A lista de premiados mostrou a diversidade da edição. Na Mostra Periférica, “Marilak”, de Carlos Mosca, venceu Melhor Filme pelo júri, enquanto “Solo Agridoce”, de Jéssica Thaís, conquistou Melhor Direção e Voto Popular. Na Mostra de Animação, “Ybyra Aú: Espírito da Floresta”, de Jonny Cansado, levou Melhor Filme e Melhor Direção. Já na Mostra do Assombro, “Mucura”, de Fabiano Barros, venceu tanto o júri quanto o Voto Popular.

O cinema internacional também esteve presente entre os vencedores. O indiano “My Father Is Afraid of Water”, de Prateek Rajendra Srivastava, ganhou Melhor Filme na Mostra Internacional de Curtas. Na categoria de longas internacionais, o argentino “Qonoq: Lo que comemos Nosotros”, de Mario Caporali, foi eleito Melhor Filme.
Nas categorias nacionais, “Os Infiéis”, de Tomás Fleck, venceu Melhor Filme e Melhor Direção entre os longas de ficção, enquanto “O Ar que a Gente Respira”, de Rafael Santin, foi escolhido pelo público. No documentário nacional, “Anistia 79”, de Anita Leandro, levou Melhor Filme, e Karol Maia venceu Melhor Direção por “Aqui não Entra Luz”, produção que também conquistou o Voto Popular.
Festival reafirma Santos como cidade de cinema
Para André Azenha, diretor-geral do Santos Film Fest, a edição confirmou a força alcançada pelo evento, com dias de programação simultânea em diferentes locais e público ocupando os espaços. Paula Azenha também destacou que a presença de filmes de 20 estados e cinco países reforça a relevância do festival, especialmente após o reconhecimento pelo Prêmio Governador do Estado na categoria Audiovisual.

A edição de 2026 também celebrou trajetórias importantes da cultura. A atriz Ondina Clais foi homenageada por seus 40 anos de carreira, enquanto Mônica Spada e Sousa, inspiração para a personagem Mônica, de Mauricio de Sousa, participou de encontro especial e também recebeu homenagem. A abertura ainda homenageou o secretário de Cultura de Santos, Rafael Leal.
No fim, o 12º Santos Film Fest encerrou sua edição ampliando a presença do cinema na cidade e fortalecendo sua função como espaço de acesso, formação e encontro. Entre filmes regionais, produções internacionais, clássicos, homenagens, debates e plateias cheias, o festival mostrou que Santos não apenas recebe cinema: Santos respira cinema.
E talvez esse seja o maior saldo da edição. Em nove dias, o festival ocupou salas, praças, universidades, escolas e espaços culturais, aproximando realizadores e espectadores, premiando novos talentos e lembrando que o cinema continua sendo uma das formas mais potentes de contar quem somos, de onde viemos e quais histórias ainda precisamos escutar.




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