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Por que os artistas da “era TikTok” estão enfrentando dificuldades para repetir o sucesso?

Foto do escritor: Cauã Rodrigues
Cauã Rodrigues
há 2 dias
6 min de leitura

A partir de 2018, com a popularização do TikTok, uma nova geração de estrelas começou a ocupar o centro da música pop. Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X estão entre os nomes que mais se beneficiaram dessa transformação. Suas músicas ganharam força por meio de vídeos curtos, desafios, memes e tendências que ultrapassaram as fronteiras da plataforma e chegaram às principais paradas do mundo.


Entre 2019 e 2022, os três artistas conquistaram enorme projeção. No entanto, seus trabalhos mais recentes apresentam números inferiores aos alcançados no auge. Na linguagem implacável das redes sociais, bastou essa diferença para que uma palavra voltasse a circular: “flop”.


Mas talvez o problema não esteja apenas nos artistas. As polêmicas envolvendo cada um deles certamente influenciaram a percepção do público, mas existe uma questão maior por trás dessa queda de rendimento: o TikTok pode transformar uma música em fenômeno sem necessariamente criar uma relação duradoura entre o público e quem canta.


Foto/Reprodução
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Quando números menores são tratados como fracasso

Costumamos dizer que um artista está “flopado” quando seu trabalho mais recente apresenta desempenho inferior ao dos lançamentos anteriores. Os números dos novos projetos de Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X apontam para essa redução, embora qualquer comparação exija cuidado.


Álbuns lançados há vários anos tiveram muito mais tempo para acumular reproduções do que projetos recentes. No caso de Lizzo, por exemplo, seu novo disco havia chegado às plataformas havia apenas cerca de um mês quando os números começaram a ser comparados. Ainda assim, a estreia abaixo dos trabalhos anteriores revelou uma dificuldade real em reproduzir o impacto que a cantora conquistou durante sua fase mais popular.


Doja Cat enfrenta um cenário parecido. “Planet Her” acumulou bilhões de reproduções e transformou a artista em um dos maiores nomes do pop mundial. Os projetos seguintes, porém, não repetiram a mesma proporção de sucesso e passaram a ser analisados sob a sombra daquele momento gigantesco.


Lil Nas X também carrega o peso de competir com a própria história. Depois de quebrar recordes com “Old Town Road” e consolidar sua carreira com “Montero”, qualquer resultado menor passou a ser interpretado como sinal de declínio.

O problema é que números menores nem sempre representam ausência de público. Muitas vezes, mostram apenas que o artista não conseguiu repetir um momento excepcional, algo que dificilmente poderia ser mantido para sempre.


O algoritmo que impulsiona também pode abandonar

O caso mais recente é o de Lizzo. Embora diferentes fatores, incluindo as controvérsias envolvendo seu nome, tenham afetado essa fase, a cantora afirmou que o algoritmo das redes sociais se tornou um dos principais obstáculos na divulgação de seu novo álbum, “B*TCH”.


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Pode parecer contraditório que o mesmo sistema responsável por ampliar sua carreira agora represente uma barreira. Mas a lógica faz sentido. O algoritmo não tem compromisso com artistas, histórias ou trajetórias. Ele entrega aquilo que possui maior chance de prender a atenção do usuário naquele momento.


Hoje, uma música pode aparecer milhares de vezes no feed e desaparecer poucas semanas depois, substituída por outra tendência. A plataforma oferece uma visibilidade gigantesca, mas também extremamente instável.


No TikTok, o feed prioriza conteúdos publicados por pessoas que o usuário muitas vezes nem segue. Cada movimento da tela pode apresentar um rosto, uma música ou uma ideia completamente diferente. Dessa forma, quando determinada faixa aparece para milhões de pessoas, isso não significa que uma conexão real será criada com quem está por trás dela.


O público pode gostar do vídeo, reproduzir o trecho, entrar na brincadeira e até ouvir a música completa. Ainda assim, talvez não memorize o nome do artista, não acompanhe seus próximos lançamentos e não tenha interesse em consumir um álbum inteiro. A audiência está engajada com o conteúdo, não necessariamente com a pessoa que o criou.


O sucesso de uma música não garante uma base de fãs

Depois dos primeiros virais, Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X buscaram repetir elementos das estratégias que haviam funcionado anteriormente. A lógica parecia natural: se determinada fórmula ajudou a conquistar milhões de ouvintes, bastaria adaptá-la para produzir outro sucesso.


Durante algum tempo, isso funcionou. “Special”, de Lizzo, “Planet Her”, de Doja Cat, e “Montero”, de Lil Nas X, mostraram que os artistas não eram donos de apenas um viral. Cada um conseguiu ampliar o primeiro momento de atenção e transformá-lo em uma era relevante.


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Com o passar dos anos, porém, o público começou a demonstrar cansaço. A insistência em formatos pensados para gerar cortes, memes, desafios e discussões fez com que o elemento inicialmente responsável por despertar interesse também passasse a parecer previsível.


O TikTok ensinou a indústria a perseguir momentos virais. Gravadoras começaram a buscar refrões mais curtos, coreografias reproduzíveis e músicas com trechos capazes de funcionar fora de contexto. Esse modelo pode gerar reproduções rapidamente, mas nem sempre oferece espaço para construir narrativas mais profundas ao redor dos artistas.


Quando o viral termina, surge a pergunta mais importante: quantas daquelas pessoas permaneceram?


Essa diferença entre alcance e comunidade ajuda a explicar a fragilidade de algumas carreiras construídas na plataforma. Um artista pode alcançar milhões de usuários sem conquistar milhões de fãs. O público geral consome aquilo que aparece no feed. Uma base de fãs procura o artista mesmo quando o algoritmo deixa de recomendá-lo.


A mudança de rumo pode ter chegado tarde demais

A tentativa de reposicionamento ganhou força quando os números começaram a cair. Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X passaram a apresentar versões mais pessoais de seus trabalhos, buscando mostrar quem realmente são como artistas em vez de insistir apenas naquilo que acreditavam agradar ao maior número possível de pessoas. O problema é que essa transição aconteceu quando parte da imagem pública já estava desgastada.


Doja Cat tentou romper com expectativas comerciais em “Scarlet” e adotou uma postura mais confrontadora em relação ao público. Lil Nas X passou a buscar novos caminhos depois de uma estreia cercada por enorme repercussão. Lizzo, por sua vez, tentou retomar o controle de sua narrativa em meio às polêmicas e às dificuldades para promover uma nova fase.


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Em todos esses casos, a autenticidade passou a ocupar um espaço maior justamente quando a fórmula anterior deixou de oferecer os mesmos resultados. Essa mudança pode ser artisticamente necessária, mas leva tempo para ser compreendida. A audiência que chegou por causa de determinado tipo de conteúdo nem sempre está disposta a acompanhar uma transformação.


O TikTok continua importante, mas não pode ser a estratégia inteira

Não há como negar a importância do TikTok para a indústria musical. Segundo dados divulgados pela Luminate em 2025, 84% das músicas presentes nas paradas haviam viralizado primeiro na plataforma. O aplicativo permanece como uma das maiores ferramentas de descoberta musical do mundo.

O erro não está em utilizar o TikTok. Está em confundir descoberta com fidelização.


Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X poderiam ter usado a plataforma como ponte para consolidar comunidades próprias logo após os primeiros virais. Redes sociais complementares, newsletters, experiências exclusivas, shows, bastidores e narrativas consistentes poderiam ajudar a transformar espectadores ocasionais em fãs realmente interessados na continuidade de suas carreiras.


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Quando toda a relação depende de um feed controlado por terceiros, o artista fica vulnerável a qualquer mudança de comportamento ou distribuição. Hoje, o algoritmo entrega seu conteúdo para milhões de pessoas. Amanhã, pode decidir que outro rosto, outra música ou outra tendência merece aquela atenção.


O público conquistado organicamente oferece algo que um viral não consegue garantir: intenção. Um fã procura o lançamento, acompanha a trajetória, compra ingressos, compartilha músicas e permanece mesmo quando determinado projeto não domina as paradas.


A primeira geração de estrelas do TikTok chegou ao seu maior teste

Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X não deixaram de ter relevância, talento ou público. Também seria precipitado afirmar que suas carreiras chegaram ao fim apenas porque os novos projetos não repetiram números extraordinários. O que está acontecendo parece ser uma transição: a primeira geração de grandes estrelas impulsionadas pelo TikTok está descobrindo o que acontece quando o algoritmo segue em frente.


O mesmo sistema que acelerou suas ascensões também criou expectativas difíceis de sustentar. Quando cada lançamento é medido contra um viral global, qualquer desempenho inferior parece uma queda. E, quando a conexão do público foi construída principalmente em torno de músicas ou momentos específicos, apresentar uma nova identidade se torna ainda mais difícil.


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A era em que o TikTok poderia ser tratado como fórmula quase garantida de sucesso parece estar chegando ao fim. A plataforma ainda consegue lançar músicas e artistas, mas não resolve sozinha o desafio de construir uma carreira.

Viralizar é conquistar atenção. Permanecer é transformar essa atenção em vínculo.


O futuro de Lizzo, Doja Cat e Lil Nas X dependerá menos da tentativa de reproduzir o próximo grande desafio da internet e mais da capacidade de mostrar por que o público deveria continuar interessado quando o vídeo termina.


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