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O declínio cultural dos VMAs: como uma das maiores premiações da música perdeu relevância

Foto do escritor: Cauã Rodrigues
Cauã Rodrigues
há 1 dia
5 min de leitura

Houve uma época em que o MTV Video Music Awards não era apenas uma premiação. Era um evento. Uma noite em que a cultura pop parecia parar para assistir quem iria chocar, performar, brigar, beijar, cair, discursar ou simplesmente fazer história. Durante muito tempo, os VMAs foram menos sobre quem levava o troféu para casa e mais sobre qual momento seria repetido, comentado e lembrado no dia seguinte.


Foto/Reprodução
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O beijo entre Madonna, Britney Spears e Christina Aguilera em 2003, a interrupção de Kanye West no discurso de Taylor Swift em 2009, a performance provocativa de Miley Cyrus em 2013 e as apresentações teatrais de Lady Gaga são alguns exemplos de como a cerimônia já foi uma verdadeira fábrica de referências culturais. Mesmo quem não assistia ao programa inteiro acabava sendo alcançado pelos acontecimentos depois. Os VMAs tinham essa força: eles escapavam da televisão e viravam conversa pública.


Durante os anos 2000 e 2010, a premiação parecia ocupar um lugar muito específico dentro da indústria. Artistas entendiam que aquele palco poderia definir uma fase da carreira. Um figurino, uma performance, um discurso ou um videoclipe premiado podiam mudar a forma como o público enxergava uma era inteira. O VMA não apenas acompanhava a cultura pop. Em muitos momentos, ele ajudava a fabricá-la.


O fim da era do videoclipe como acontecimento

O enfraquecimento dos VMAs está diretamente ligado à mudança no consumo musical. Durante décadas, o videoclipe era uma das principais formas de apresentar uma música ao mundo. Não bastava lançar uma faixa forte: era preciso criar uma imagem, uma estética, uma narrativa. O clipe funcionava como extensão da música e, muitas vezes, era ele quem fazia a canção ganhar corpo no imaginário popular.


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A MTV era parte essencial desse processo. Ter um videoclipe em alta rotação, estrear uma produção aguardada ou ser indicado ao VMA significava ocupar um espaço importante dentro da cultura jovem. A premiação nasceu justamente ligada à força dos vídeos musicais, e por isso fazia sentido que artistas tratassem aquele palco como uma vitrine decisiva para suas eras visuais.


Hoje, a lógica é outra. Em uma indústria dominada por redes sociais, cortes curtos, trends, coreografias replicáveis e algoritmos, o videoclipe deixou de ser o centro de muitas campanhas. A imagem continua importante, mas agora ela disputa atenção com uma quantidade quase infinita de conteúdos.


O público não espera necessariamente por um clipe de cinco minutos. Muitas vezes, espera por um trecho de 15 segundos que funcione no TikTok.


Isso não significa que o videoclipe morreu. Ele ainda pode ser uma ferramenta poderosa quando existe conceito, investimento e ambição artística. O problema é que poucos vídeos recentes conseguem se transformar em acontecimentos coletivos. E, sem videoclipes capazes de parar a internet, uma premiação dedicada a eles naturalmente perde parte do impacto.


Quando os videoclipes definiam gerações

Para quem cresceu assistindo à MTV, os videoclipes não eram apenas materiais promocionais. Eles eram porta de entrada para novos artistas, novas estéticas e até novos comportamentos. Muita gente conheceu músicas, bandas e cantoras porque viu um vídeo passando na televisão, em um bar, em casa, na escola ou em algum lugar onde a MTV estava ligada como trilha visual de uma geração.


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Existia expectativa em torno da estreia de um clipe. Existia curiosidade para ver qual seria a estética de uma nova era. Existia o prazer de assistir a uma narrativa visual do começo ao fim. Hoje, esse hábito parece cada vez mais raro.


A rotina acelerada e o excesso de estímulos fizeram com que muita gente prefira ouvir um álbum no caminho do trabalho, salvar um trecho viral ou consumir recortes soltos, em vez de parar para assistir a um videoclipe inteiro.


Essa mudança afeta diretamente os VMAs porque a premiação dependia desse ritual. Se o videoclipe deixa de ser uma experiência central para o público, o prêmio também deixa de parecer essencial. A cerimônia continua existindo, os indicados continuam fortes, os fãs ainda votam, mas a sensação de urgência cultural já não é a mesma.


Uma premiação com ausências cada vez mais visíveis

A edição de 2026 mostra bem essa contradição. A lista de indicados reúne nomes enormes, com Madonna liderando com 11 indicações e Taylor Swift aparecendo logo atrás, com nove. Ariana Grande e Sabrina Carpenter também surgem entre os destaques, enquanto Anitta representa o Brasil na categoria Melhor Latino ao lado de Shakira com “Choka Choka”. A cerimônia acontece em 27 de setembro, em Los Angeles, com transmissão pela CBS, MTV e Paramount+.


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Ainda assim, mesmo com uma lista cheia de artistas relevantes, a conversa em torno do VMA já não parece carregar o mesmo peso de outras épocas. Parte disso acontece porque muitos artistas importantes não tratam mais a premiação como parada obrigatória. Outros até aparecem indicados, mas sem que seus videoclipes tenham realmente provocado uma mudança cultural fora de seus próprios fandoms.


Também existe uma contradição no próprio formato. Os VMAs premiam vídeos, não necessariamente as melhores músicas do ano. Isso faz sentido historicamente, mas se torna mais complicado em uma era em que muitos artistas priorizam campanhas digitais, performances curtas e presença constante nas redes em vez de grandes produções audiovisuais. O prêmio continua olhando para o videoclipe, enquanto parte da cultura pop já se deslocou para outros formatos.


O problema não é só a premiação

Seria fácil dizer que os VMAs perderam relevância apenas por culpa da MTV ou da cerimônia em si. Mas a questão é maior. O que mudou foi o ecossistema inteiro. A televisão perdeu centralidade, os clipes perderam exclusividade, os fãs se fragmentaram em bolhas e os grandes momentos culturais se tornaram mais difíceis de compartilhar de forma coletiva.


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Antes, uma performance polêmica precisava de uma noite ao vivo para explodir. Hoje, qualquer artista pode gerar um momento viral direto do celular. Antes, o VMA era um palco raro de exposição massiva. Hoje, os artistas constroem narrativas diariamente no Instagram, TikTok, YouTube, podcasts, lives e bastidores. A premiação deixou de ser o grande centro porque a cultura pop se espalhou em múltiplos centros menores.


O resultado é uma cerimônia que ainda tem nome, tradição e relevância simbólica, mas já não parece obrigatória da mesma forma. O VMA continua tentando se vender como evento, mas compete com uma internet que produz eventos todos os dias.


Os VMAs ainda podem recuperar sua força?

O declínio cultural dos VMAs não significa que a premiação esteja condenada. Formatos artísticos entram e saem do centro da cultura. O videoclipe pode voltar a ganhar força se artistas decidirem investir novamente em conceitos visuais realmente ambiciosos. Uma performance ao vivo ainda pode chocar, emocionar e viralizar. Um prêmio ainda pode criar narrativa, principalmente quando entende o espírito do tempo.


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Mas, para recuperar relevância, os VMAs não podem apenas tentar repetir o passado. Não basta buscar “um novo beijo da Madonna” ou “uma nova interrupção de Kanye”. O impacto daqueles momentos vinha de um contexto específico, de uma televisão mais centralizada, de uma MTV mais forte e de uma cultura pop menos fragmentada. Reproduzir a fórmula sem entender o presente só cria nostalgia vazia.


O caminho talvez esteja em abraçar novas linguagens sem abandonar a essência visual da premiação. Abrir espaço real para artistas emergentes, valorizar direções criativas ousadas, transformar performances em experiências e entender que o videoclipe de hoje talvez não seja apenas um vídeo tradicional. Ele pode ser curta-metragem, performance digital, campanha interativa, estética de rede social ou experiência híbrida.


No fim, fazer o luto pelos VMAs de antigamente também é reconhecer o quanto eles foram importantes. Durante décadas, a premiação entregou imagens que ajudaram a definir gerações. Ela ensinou que a música pop também era corpo, figurino, escândalo, coreografia, narrativa, televisão e espetáculo.


O problema é que a cultura pop mudou de casa. Saiu da MTV, se espalhou pelas redes e deixou os VMAs tentando provar que ainda conseguem ser o centro da festa. Talvez consigam de novo. Mas, por enquanto, a sensação é que uma das premiações mais caóticas, brilhantes e importantes da música virou mais lembrança do que acontecimento.

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