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Anitta entrega brasilidade em “EQUILIBRIVM II” com Carmen Miranda, Djavan, sambas e forrós

  • Foto do escritor: Cauã Rodrigues
    Cauã Rodrigues
  • 24 de jul.
  • 4 min de leitura

Anitta lança nesta quarta-feira, 23 de julho, às 21h, “EQUILIBRIVM II”, segunda parte do projeto mais espiritualizado e brasileiro de sua carreira. Apesar de ter sinalizado anteriormente que o novo volume poderia trazer uma abordagem mais internacional, o álbum chega com 17 faixas majoritariamente em português e reforça a conexão da artista com ritmos, símbolos e tradições musicais do Brasil.


Funk, samba, bossa nova, forró, reggae, afoxé, baião, referências de terreiro e participações de nomes como Maria Bethânia, Alceu Valença, Mestrinho, Mart’nália, Alexandre Carlo, MC Tha, Grupo Ofá, Brô MC’s e Katú Mirim formam a base de um disco que amplia o universo apresentado na primeira parte.


Foto: André Nicolau/Divulgação
Foto: André Nicolau/Divulgação

A surpresa está justamente na direção escolhida. Em vez de se afastar da brasilidade para mirar um som mais globalizado, Anitta parece ter entendido que “EQUILIBRIVM” funciona melhor quando mergulha nas raízes brasileiras. A única faixa em espanhol, “Azul”, é uma versão da canção de Djavan lançada originalmente na voz de Gal Costa em 1982, mantendo o elo com a música brasileira mesmo quando muda de idioma.


Já “Pra Você Gostar de Mim” evoca Carmen Miranda ao citar a marchinha “Taí”, primeiro grande sucesso da artista, transformando a referência em uma espécie de bossa melancólica dentro do repertório.


A escolha de Carmen Miranda também conversa com a própria trajetória internacional de Anitta. As duas artistas, em tempos completamente diferentes, foram vistas como símbolos brasileiros fora do país, cada uma carregando uma imagem pop do Brasil para o mundo. Anitta já havia brincado com esse imaginário em 2018, quando subiu ao Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa com uma estética que evocava Carmen e misturava referências clássicas brasileiras com batidas de funk.


Agora, em “EQUILIBRIVM II”, essa conexão aparece de forma mais conceitual, como parte de uma tentativa de olhar para o passado sem abandonar a linguagem pop contemporânea.


Crédito: André Nicolau
Crédito: André Nicolau

O disco começa com força rítmica e espiritual. Faixas como “Você Já Sabe” e “Sal Grosso” aproximam funk, percussão, referências de terreiro e linguagem urbana, criando uma abertura que apresenta o território do álbum: uma mistura entre baile, fé e identidade brasileira.


Em “Não Me Cutuca”, parceria com Alceu Valença, Anitta entra no universo do xaxado e do forró com uma letra provocativa e bem-humorada, enquanto “Eu Não Sou Santa”, com Mestrinho, aposta em sanfona, ternura e nordestinidade. Esses momentos mostram uma artista menos interessada em suavizar suas referências para caber no mercado internacional e mais disposta a organizar uma estética brasileira com ambição pop.


A espiritualidade aparece como eixo central em boa parte do projeto. “Feitiço”, com Mart’nália, traz uma atmosfera de canto de terreiro com presença eletrônica sutil, enquanto “Sem Pressa”, com MC Tha, se aproxima do afoxé para falar de calma, tempo e conforto espiritual.


Esse caminho se intensifica em “Deus Mãe”, com King Saints, e ganha um dos momentos mais simbólicos do álbum em “Ogum Me Rodeia”, parceria com Maria Bethânia e Letícia Fialho. A presença de Bethânia dá ao disco um peso quase ritualístico, como se Anitta estivesse buscando uma validação ancestral para essa fase em que fé, corpo, sensualidade e música brasileira caminham juntos.


Foto: André Nicolau/Divulgação
Foto: André Nicolau/Divulgação

O lado mais solar e popular do álbum aparece em faixas como “Ponta do Pé”, um samba-pop com sopros e clima de gafieira, e “Respira”, que mistura samba com sabor latino e mostra uma Anitta mais leve, descontraída e consciente de suas próprias contradições.


Já “Abre Caminho”, com Alexandre Carlo, aposta em um baião-reggae com mensagem de liberdade, enquanto “Tudo Isso” segue pela via do reggae romântico. Essas músicas ajudam a equilibrar o tom mais espiritual do projeto com faixas de apelo mais imediato, mantendo o álbum acessível sem enfraquecer seu conceito.


O projeto visual também parece ocupar um papel importante nessa era. Antes do lançamento, Anitta contou nas redes sociais que se emocionou ao assistir à versão final do material audiovisual de “EQUILIBRIVM II”. A cantora afirmou que o resultado é um dos trabalhos mais bonitos que já realizou e destacou a força da mensagem, da estética e da equipe envolvida.


Com mais de 30 minutos de conteúdo visual, o projeto deve funcionar como uma extensão do álbum, aprofundando a narrativa espiritual, brasileira e cinematográfica que atravessa as faixas.


Foto: André Nicolau/Divulgação
Foto: André Nicolau/Divulgação

Mesmo com participações de peso e referências históricas, “EQUILIBRIVM II” não soa como um álbum preso ao passado. Pelo contrário, a proposta de Anitta parece ser traduzir tradições brasileiras para uma linguagem atual, conectada ao funk, à música eletrônica, ao pop e às possibilidades visuais do streaming.


A faixa final, “Oke”, com Brô MC’s e Katú Mirim, amplia essa leitura ao trazer rap indígena para o encerramento do disco, apontando para uma ideia de Brasil mais ampla, menos óbvia e menos centralizada nos repertórios já conhecidos do pop nacional.


No fim, “EQUILIBRIVM II” confirma que a fase mais interessante de Anitta talvez não esteja em tentar soar internacional a qualquer custo, mas em assumir que sua força global vem justamente do que ela carrega de mais brasileiro. O álbum mistura Carmen Miranda, Djavan, Gal Costa, samba, forró, reggae, funk, afoxé e espiritualidade sem transformar essas referências em vitrine turística.


É um disco de identidade, corpo e território. Uma continuação que não apenas expande a primeira parte, mas deixa mais claro o que Anitta está tentando construir: um pop brasileiro com raiz, ritual e ambição de mundo.

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